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(IV / V) Bradley - Conferência I "A substância da tragédia shakespeariana"

BRADLEY, A. C. A Tragédia Shakesperiana. Trad. Alexandre Feitosa Rosas. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 3-27. Conferência I – A substância da tragédia shakespeariana.

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Qual o poder supremo no trágico?

Sabe-se que há um poder supremo na tragédia. Contudo este poder não são os heróis, que por maiores que sejam sucumbem com a própria grandeza. Há para isto ampla diversidade de respostas que comumente acabam por isolar e analisar algum aspecto específico do fenômeno trágico. Para identificar o que seria o poder supremo é necessário vivenciar a experiência imaginativa emocional da tragédia por meio dos estudos especialistas de Shakespeare. Mas esta experiência é o conteúdo a ser interpretado, e o teste pelo qual a interpretação deve passar, sendo difícil compreender esta experiência com exatidão (p. 17).

No esforço de compreender o especialista tende a transformar a experiência mediante as idéias cotidianas da mente reflexiva. Isso produz um resultado que não representa o trágico de fato, apenas a sua redução a uma convenção.

A questão a respeito do poder supremo não pode ser respondida nos termos de uma linguagem religiosa. Por mais que as obras de Shakespeare apresentem personagens com discursos religiosos, estas idéias não influenciam materialmente sua representação da vida, e tão pouco são usadas para lançar luz sobre o mistério de sua tragédia.

O drama elisabetano é quase que inteiramente secular, e Shakespeare analisava este mundo secular com atenção. Só nos resta concluir que o representava com inteira fidelidade, sem o desejo de incluir opinião pessoal e sem preocupação com os medos, esperanças e crenças de ninguém. Dessa forma, quando escreveu, restringiu sua visão àquilo que se podia observar, e não da reflexão não teológica. Ele representou o mundo fundamentalmente de um único modo, independente de suas histórias pertencerem tanto a era cristã, quanto pré-cristã.

A visão trágica de Shakespeare dificilmente estaria em contradição com sua fé religiosa, porém não condiz exatamente com ela. Possivelmente misturou-se por idéias suplementares, adicionais, sem anular sua visão trágica dentro da idéia religiosa (p. 18).

Duas informações sobre o fenômeno trágico:

O fenômeno trágico representado por Shakespeare, (a) é e permanece comovente, assustador e misterioso; e (b) não causa devastação, revolta ou desespero. São idéias que permitem servir de fio condutor para a maior parte dos estudos trágicos de Shakespeare.

(a) Se o fenômeno trágico permanece comovente, assustador e misterioso, conclui-se que o poder supremo no mundo trágico não pode ser adequadamente descrito como uma lei ou uma ordem que pareça justa ou benevolente (ordem moral).

(b) Se o fenômeno trágico não causa devastação, revolta ou desespero, conclui-se que o poder supremo não pode ser adequadamente descrito como sina, malfazeja e cruel, ou indiferente à felicidade humana e à bondade.

Os estudos tendem a isolar e analisar apenas um aspecto dentre estes, para concluir a respeito do fenômeno trágico, tais como a ação, o sofrimento, o laço estreito e indissolúvel que liga o caráter, a vontade, as atitudes e a catástrofe. E estes elementos colocados isolados mostram exatamente um individuo pecando contra a ordem moral e sofrendo as conseqüências. Ou apresenta o herói como mera vítima de um poder que ignora tanto seus pecados quanto seus sofrimentos.

Estas visões se contradizem mutuamente. Deve-se lembrar que os aspectos que forma isolados apresenta-se em conjunto no fenômeno trágico, e é necessário uma visão que combine todos estes aspectos.

A idéia de fatalidade:

Ela surge necessariamente em alguns momentos, tornado possível sentir que o herói está fadado à ruína, que as personagens são levadas na direção do fim trágico, que por mais culpáveis em suas ações, a culpa não é a única causa, ou não é causa suficiente para justificar o tamanho do sofrimento. Sente-se que o poder do qual tentam escapar é inexorável, sendo isto parte essencial do efeito trágico (p. 19).

As fontes destas impressões são as mais diversas. Cláudio diz, em Hamlet, “Somos donos de nossos pensamentos, seus fins não nos pertencem” (our thoughts are ours, their ends none of our own). Os fins, as conseqüências e resultados dos pensamentos, não pertencem às personagens. No mundo trágico se iguala o mundo da ação, e a ação é a tradução do pensamento em realidade. Às personagens é permitido agir livremente, e ainda sim suas ações os prendem às conseqüências não previstas ou não intencionadas.

É possível afirmar que a intenção da ação não tem valor para o resultado dela, sendo ela boa ou má. Exemplifica-se com os casos de Bruto, que na melhor das intenções levou destruição a seu país e atraiu a morte sobre si mesmo; Iago acaba por se enredar na teia que montou para os demais; Hamlet, adiando o momento de sua vingança, causou a morte de quase todos ao seu redor até ver-se obrigado a assassinar o tio. No mesmo caso está o assassinato cometido por Cláudio, e seu próprio remorso, que causaram o oposto daquilo que ele pretendia. Lear aceita obedecer ao capricho de um ancião, em parte egoísta e em parte generoso. Otelo, pretendendo fazer valer o peso da justiça, destrói as outras coisas (p. 20).

Na ação das personagens também é possível perceber que elas não entendem a si mesmas, ou o mundo que as cerca. Coriolano considera seu coração como feito de ferro, e o vê derreter diante do fogo. Lady Macbeth se imaginava capaz de destruir o próprio filho, vê-se perseguida pelo cheiro de sangue da morte de um estranho. Seu marido acreditava que para assegurar a coroa arriscaria a vida futura, e descobre que foi exatamente a coroa que trouxe os horrores desta vida (p. 20).

Percebe-se que o pensamento humano, posto em prática no ato, gera resultados opostos de si mesmo. Sente-se a cegueira e a impotência do homem. Mas apenas isto não parece suficiente para redundar na idéia de destino, pois o homem se apresenta, ao menos em certa medida, como causa do próprio infortúnio.

O terrível azar do homem:

Os homens agem de acordo com seu caráter, mas são acometidos por eventos únicos de desastre que em outro contexto seria insignificante, expostos pelos acidentes. O despertar de Julieta segundos depois de ser tarde demais. A perda do lenço por parte de Desdêmona. O atraso insignificante que custou a vida de Cordélia. Otelo torna-se companheiro do único homem no mundo capaz de enredá-lo. Seria uma fatalidade que daria a Lear àquelas filhas, e Cordélia àquelas irmãs. Os homens agem segundo seu caráter, mas há algo mais que traz exatamente o embaraço que pode aniquilá-los.

Mesmo o caráter contribui para a sensação de fatalidade. São tantos desastres que não dariam a um mortal a possibilidade de escapatória. Desastres que podem ser gerados inclusive por conta da grande virtude do homem. O herói possui virtudes que o leva à destruição, tanto quanto possui fraquezas e imperfeições conectadas com tudo que lhe é admirável, de forma que mal se pode separá-los.

O que não se pode perceber nestas impressões?

Não se pode perceber um fatalismo na sua forma mais primitiva, crua e óbvia. Os sofrimentos e as ações não parecem terem sido estabelecidos arbitrariamente e a priori, sem relação com os sentimentos, pensamentos, decisões e ações das personagens. Não há a aparência de haver um desprezo particular com uma pessoa ou uma família. Não é totalmente fatalista, inclusive porque não se experimenta a impressão de que a família, devido a um crime oculto do passado, esteja fadada no futuro a continuar a cadeia de pecados e calamidades. A hereditariedade não parece ter suficiente importância em Shakespeare.

Então, o que é este destino, o que são estas impressões e em que poderiam contribuir para descrever este poder supremo do fenômeno trágico?

A ordem ou o sistema:

Imaginando o sistema ou uma ordem em que cada personagem é uma parte frágil e insignificante, cujas disposições naturais, suas circunstancias e suas atitudes (através de suas ações expressas na disposição do caráter), parecem determinadas por esta ordem. Uma ordem que seria casta e complexa, para além da compreensão humana e do controle das personagens. Possui uma natureza fixa e definida de forma que quaisquer mudanças nela produzem outras mudanças alheias e independentes à vontade e a intenção do agente.

Este sistema ou ordem, ainda que se chamado de destino, se apresentaria como o poder supremo do fenômeno trágico. O destino pode servir para indicar algo a mais, essa ordem seria uma imposição neutra em relação ao homem e independente do bem estar deste, independente da diferença entre bem e mal, certo e errado.

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